Cabotagem e ferrovias: O multimodal está saindo do papel?
Multimodalidade começa a ocupar um papel mais relevante na logística brasileira ou representa uma alternativa a corredores específicos? Tema está na agenda do Logística do Futuro 2026.
Nos últimos meses, uma sequência de anúncios envolvendo diferentes modais de transporte passou a chamar a atenção do setor logístico brasileiro. Operadores ampliaram rotas de cabotagem, empresas anunciaram novas soluções integradas, projetos ferroviários avançaram e o governo apresentou uma carteira bilionária de investimentos voltada à expansão da infraestrutura de transportes.
Individualmente, cada iniciativa atende a estratégias e necessidades distintas. Em conjunto, entretanto, esses movimentos despertam uma discussão que vem ganhando espaço entre operadores logísticos, embarcadores e especialistas: afinal, a multimodalidade começa a ocupar um papel mais relevante na logística brasileira ou ainda representa uma alternativa restrita a corredores específicos e determinadas cadeias produtivas?
A pergunta surge em um momento em que diferentes empresas passaram a incorporar, de forma mais evidente, soluções que combinam modais distintos em uma mesma operação. Em maio, por exemplo, a Azul anunciou a transformação da Azul Cargo em Azul Logística, mudança que acompanha a ampliação da atuação da companhia para operações rodoviárias, marítimas e aéreas. Segundo a empresa, a estratégia prevê triplicar a capacidade dedicada à logística e ampliar a oferta de soluções integradas para diferentes segmentos da economia.
Poucos meses antes, a MRS Logística anunciou a entrada no transporte hidroviário com a criação da MRS Hidrovias. O projeto, estimado em R$ 1,5 bilhão, foi estruturado para conectar hidrovia, ferrovia e rodovia em uma mesma operação, ligando o Centro-Oeste à malha ferroviária por meio da Hidrovia Tietê–Paraná. Além das embarcações, a iniciativa contempla terminais preparados para receber cargas provenientes dos três modais.
Na cabotagem, operadores também anunciaram novos movimentos. A Aliança Navegação e Logística lançou uma rota expressa entre Itapoá (SC) e Manaus (AM), reduzindo o tempo de trânsito entre os dois polos. A Norcoast, por sua vez, ampliou a atuação no Nordeste com uma nova escala no Porto de Salvador, fortalecendo a conectividade entre portos já atendidos pela companhia. No mesmo período, a Studio Z informou a ampliação do uso da cabotagem em parte da operação logística entre o Sul e a Região Norte, destacando ganhos relacionados à redução de emissões e à previsibilidade operacional.
Os movimentos observados na iniciativa privada ocorreram paralelamente a uma nova agenda de investimentos públicos. Em 2026, o Ministério dos Transportes apresentou uma carteira composta por oito projetos ferroviários considerados estratégicos, além de anunciar um novo modelo de financiamento para empreendimentos ferroviários e a previsão de leilões de terminais logísticos.
Já o Ministério de Portos e Aeroportos incluiu na agenda do ano novos leilões portuários, projetos de concessão de hidrovias e investimentos voltados à infraestrutura aquaviária.
Embora esses anúncios tenham características distintas, eles recolocaram a multimodalidade no centro das discussões sobre infraestrutura e logística.
O QUE ESTÁ POR TRÁS DESSE MOVIMENTO?
Na avaliação da presidente da Aliança Navegação e Logística, Luiza Bublitz, um dos principais desafios para a ampliação da cabotagem no Brasil ainda é cultural. Durante participação no nstech cast, a executiva afirmou que a forte tradição do transporte rodoviário faz com que muitas empresas ainda enxerguem a cabotagem como uma alternativa ao caminhão, quando, na prática, ela funciona melhor como parte de uma operação integrada.
Segundo ela, a adoção do modal exige planejamento de toda a cadeia logística, envolvendo produção, estoques, abastecimento e distribuição, e não apenas a contratação de um novo serviço de transporte.
Ainda de acordo com a executiva, a eficiência está na integração entre os modais. Na visão dela, rodovias, ferrovias, cabotagem e transporte aéreo possuem características distintas e devem atuar de forma complementar, aproveitando as vantagens de cada um conforme a operação.
Também em participação no nstech cast, CEO da Norcoast, Fabiano Lorenzi, defendeu que a evolução da cabotagem está diretamente relacionada ao desenvolvimento de soluções logísticas integradas.
Segundo o executivo, o crescimento do modal nos últimos anos foi impulsionado pela adoção de operações porta a porta, em que o transporte marítimo passou a ser combinado com parceiros rodoviários para realizar a coleta e a entrega das mercadorias. Na avaliação de Lorenzi, essa integração tornou a cabotagem mais competitiva e ampliou as possibilidades de utilização por empresas de diferentes segmentos.
O executivo também destacou que a discussão não deve ser tratada como uma disputa entre modais. Segundo ele, cada sistema possui uma vocação dentro da cadeia logística: as ferrovias tendem a atender operações de grandes volumes, enquanto a cabotagem apresenta potencial para conectar diferentes regiões do país no transporte de cargas conteinerizadas e produtos de maior valor agregado.
O QUE OS NÚMEROS MOSTRAM?
Os anúncios recentes de empresas e os projetos apresentados pelo poder público mostram que a multimodalidade voltou a ocupar espaço nas discussões sobre logística. Mas os dados disponíveis permitem afirmar que essa mudança já está refletindo na matriz de transportes brasileira?
Embora a participação do transporte rodoviário continue predominante, outros modais vêm registrando avanços nos últimos anos. Dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostram que, atualmente, o modal rodoviário responde por 64,85% da movimentação de cargas no país. Em seguida aparecem o ferroviário, com 14,95%, a cabotagem, com 10,47%, o hidroviário, com 5,25%, o dutoviário, com 4,45% e o transporte aéreo, com 0,03%.
Apesar da liderança das rodovias, alguns indicadores mostram crescimento de outros modais. Os portos brasileiros movimentaram 103,9 milhões de toneladas em janeiro de 2026, volume 12,2% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior. No transporte ferroviário, foram movimentadas 74,69 milhões de toneladas úteis entre janeiro e março de 2026, alta de 4,2% na comparação com o primeiro trimestre de 2025.
Na cabotagem, a evolução também pode ser observada ao longo dos últimos anos. Em 2008, o transporte de contêineres entre portos brasileiros movimentava aproximadamente 400 mil TEUs. Em 2024, esse volume alcançou cerca de 1,5 milhão de TEUs, quase quatro vezes mais.
Segundo informações do setor, esse crescimento foi acompanhado por investimentos da ordem de R$ 3,5 bilhões na última década, destinados à incorporação de embarcações registradas sob bandeira brasileira. Atualmente, a frota nacional reúne mais de 70 navios dedicados à cabotagem.
Os impactos desse crescimento também podem ser observados sob a ótica da operação logística. De acordo com estimativas do setor, o volume movimentado pela cabotagem em 2024 correspondeu a mais de um milhão de viagens rodoviárias que deixaram de ser realizadas. Em outra comparação apresentada pelas empresas do segmento, essa quantidade de caminhões formaria aproximadamente cinco filas entre São Paulo e Fortaleza.
Além dos números operacionais, a própria geografia brasileira costuma ser apontada como um dos principais fatores favoráveis à expansão da navegação costeira. O Brasil possui mais de 8 mil quilômetros de litoral e cerca de 60% da população vive a até 200 quilômetros da costa, características que ampliam o potencial para utilização da cabotagem em operações de longa distância. Ainda assim, especialistas observam que esse potencial permanece superior ao nível atual de utilização do modal.
No caso das ferrovias, os desafios são diferentes. Embora novos projetos e investimentos tenham voltado à agenda do setor, a participação do modal na logística brasileira continua inferior à observada em outros países de dimensões continentais.
Dados do “Panorama do Sistema Ferroviário Brasileiro”, de 2025, mostram que países como Rússia, Canadá, Estados Unidos, Austrália e China utilizam o transporte ferroviário de forma mais intensa na movimentação de cargas. A Rússia, por exemplo, transporta cerca de 81% das cargas por trilhos. No Brasil, independentemente das diferenças metodológicas entre os estudos disponíveis, a participação permanece significativamente menor, evidenciando a maior dependência do transporte rodoviário.
A comparação também aparece quando se observa a densidade ferroviária. O Brasil conta com aproximadamente 3,62 quilômetros de ferrovia para cada mil quilômetros quadrados de território — índice considerado baixo para um país de dimensões continentais.
Na prática, essa cobertura limitada reduz as possibilidades de conexão entre regiões produtoras, centros consumidores, terminais logísticos e portos, restringindo o alcance do modal em diversas cadeias produtivas.
Dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) mostram que, entre 2010 e 2021, cerca de 27,5% dos recursos aplicados pelas concessionárias ferroviárias foram destinados à aquisição e manutenção de locomotivas e vagões. Em 2021, esse percentual chegou a representar 42,8% do total investido pelas operadoras, demonstrando um esforço contínuo de modernização da frota e dos equipamentos.
AGENDA DE INVESTIMENTOS EM ANDAMENTO
Paralelamente aos movimentos observados na iniciativa privada, o setor também acompanha uma série de investimentos e projetos voltados à infraestrutura de transportes anunciados nos últimos meses.
Na área ferroviária, o Ministério dos Transportes apresentou uma carteira composta por oito projetos considerados estratégicos, com potencial para mobilizar até R$ 656 bilhões, incluindo cerca de R$ 140 bilhões em investimentos diretos na malha ferroviária. Entre os empreendimentos previstos estão a Ferrogrão, o Corredor Leste-Oeste, o Corredor Minas-Rio, a Malha Oeste, o Anel Ferroviário do Sudeste, além da expansão da Ferrovia Norte-Sul e dos corredores Paraná–Santa Catarina, Rio Grande e Mercosul.
Também neste ano, o governo apresentou um novo modelo de financiamento para empreendimentos ferroviários, com prazo de até 40 anos e uma carteira estimada em R$ 160 bilhões.
Na infraestrutura aquaviária, o Ministério de Portos e Aeroportos anunciou uma agenda que contempla 18 leilões portuários, cinco projetos de concessão de hidrovias e R$ 586 milhões destinados à infraestrutura hidroviária. Os investimentos incluem projetos em portos distribuídos por diferentes regiões do país e concessões previstas para hidrovias como Paraguai, Madeira, Tocantins, Tapajós e Hidrovia Verde.
No setor privado, os investimentos seguem a mesma direção. A MRS anunciou aporte de R$ 1,5 bilhão para estruturar sua operação hidroviária integrada; a Rumo colocou em operação a primeira fase da Ferrovia Estadual de Mato Grosso, empreendimento que recebeu mais de R$ 5 bilhões em investimentos nesta etapa; e operadores de cabotagem e logística integrada seguem ampliando serviços, rotas e capacidade operacional.
LOGÍSTICA DO FUTURO
O transporte multimodal estará no centro das discussões do Logística do Futuro 2026. Realizado pela MundoLogística, o evento será realizado nos dias 9 e 10 de setembro, no Transamerica Expo Center, em São Paulo, com foco em soluções práticas para empresas de diferentes portes e níveis de maturidade.
Na 7ª edição, o encontro contará com mais de 100 sessões de conteúdo, uma área de negócios com mais de 250 soluções e uma programação que reunirá alguns dos principais executivos e especialistas do setor no Brasil. As inscrições estão abertas e podem ser realizadas em https://logisticadofuturo.com.br/.
Para esta edição, o Logística do Futuro segue recrutando nomes de peso para inspirar os profissionais do setor. Um dos keynote speakers confirmados é João Branco, que chegou ao McDonald’s em 2014 como diretor de Marketing e liderou o reposicionamento da marca no Brasil, incluindo a transformação da rede em “Méqui”.
Outro nome confirmado é o filósofo, cientista político e professor de Ética e Pensamento Crítico no Insper, Fernando Schuler. Curador do projeto “Fronteiras do Pensamento” e colunista do Estadão, Schuler também atuou na gestão pública como Secretário de Estado do Rio Grande do Sul.
Fonte: Mundo Logística