Acordo Mercosul e União Europeia: Especialistas divergem sobre impacto na logística

Após 25 anos de negociação, acordo entre os dois blocos econômicos avança e pode aumentar as exportações brasileiras em mais de US$ 7 bilhões no curto prazo.
O acordo histórico assinado pelo Mercosul e pela União Europeia pode aumentar as exportações brasileiras em mais de US$ 7 bilhões no curto prazo, de acordo com as estimativas da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). Nesse cenário, há um setor atento à zona de livre comércio criada pelos dois blocos econômicos: a logística.
Aprovado na Comissão do Parlasul nesta terça-feira (24), o acordo pode ampliar as exportações de 543 produtos com a retirada de tarifas. A medida inclui a eliminação das tarifas de importação da União Europeia sobre aproximadamente 95% dos bens, equivalentes a 92% do valor das importações europeias de bens brasileiros.
Após mais de 25 anos de negociação, o acordo finalmente está avançando nas discussões e as rodovias, os portos e os centros de distribuição do país podem começar a se preparar para as novas oportunidades. O tratado beneficia principalmente o agronegócio brasileiro, com tarifas reduzidas para açúcar, café e frutas, além de menores taxas de importação para carnes, bens químicos e etanol.
Para o vice-presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas no Estado do Paraná (SETCEPAR), Luiz Gustavo Nery, o acordo representa um marco para o comércio exterior brasileiro e terá reflexos diretos sobre o setor de transporte de cargas.
“O acordo proporciona previsibilidade e segurança jurídica, estimulando investimentos produtivos e logísticos”, explicou, acrescentando que esse movimento permite que transportadoras ampliem frotas e invistam em tecnologia, rastreabilidade e conformidade, elevando o padrão operacional do setor.
“É uma oportunidade para que o transporte rodoviário se posicione de forma ainda mais estratégica na integração internacional do Brasil”, completou Nery.
No entanto, essa tese não é defendida por todo o setor de logística e há visões menos otimistas no mercado. Em entrevista para a MundoLogística, o CFO e sócio na Comexport, Rodrigo Guerra, defendeu que o impacto não será sentido imediatamente e isso se deve a diversos fatores, como o contexto geopolítico e econômico mundial.
“Será difícil conseguir discernir o impacto desse acordo entre todas as outras milhares de situações, como mudanças econômicas, mudanças de governo e mudanças geopolíticas que acontecem no mundo”, apontou o executivo.
De acordo com Guerra, é necessário analisar o mundo atual para entender o contexto em que o acordo avançou. Ele explicou que o tarifaço teve um impacto muito grande, já que os países da União Europeia foram “castigados” com as tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“Quando o Trump começou a impor um monte de tarifas para todos os países do mundo, as nações começaram a criar alternativas e a retaliar”, destacou. Nesse movimento, a União Europeia também criou uma zona de livre comércio com a Índia, envolvendo cerca de duas bilhões de pessoas. Para o executivo, o acordo firmado entre a União Europeia e a Índia possui relevância maior para ambas as partes do que o tratado com o Mercosul.
“O acordo negociado entre Europa e Índia favoreceu muito mais os dois lados do que o acordo entre Mercosul e União Europeia”, observou o especialista. “Primeiro, porque é um acordo que reduz as tarifas de uma maneira significativa no momento e não ao longo de 10 anos. Além disso, o volume transacional entre esses dois blocos é duas a três vezes maior do que o volume do Mercosul com a União Europeia.”
O executivo também chamou a atenção para a configuração dos parceiros comerciais brasileiros, uma vez que a China é o principal destino das exportações brasileiras. Mesmo com a importância do bloco europeu, no mês de janeiro de 2026, por exemplo, o Brasil exportou US$ 6,47 bilhões para o país asiático em comparação com US$ 3,92 bilhões para a União Europeia.
IMPACTOS DO ACORDO MERCOSUL E UNIÃO EUROPEIA NA LOGÍSTICA
Dado esse contexto, Rodrigo Guerra pontuou a dificuldade de mensurar os impactos do acordo entre o Mercosul e a União Europeia na logística e no comércio exterior brasileiro. Segundo o executivo, a avaliação é dificultada pela coexistência de variáveis econômicas e geopolíticas. Ele avaliou que leis específicas — como no caso da Lei do Mover para veículos elétricos — e mudanças tarifárias abruptas podem se sobrepor aos efeitos do acordo.
Além disso, será difícil que o brasileiro, de forma geral, sinta essa diferença no dia a dia. “Não é um negócio imediato e nem é de um tamanho tão significativo que vai fazer uma diferença na vida do brasileiro de uma forma geral”, avaliou.
Sim, há a promessa que o brasileiro poderá comprar vinho importado com as melhores condições. Porém, para o executivo, há muitas variáveis que dificultam prever, com base nesse acordo, quando o Brasil comprará vinho francês mais barato.
PREPARAÇÃO DAS EMPRESAS
Já o vice-presidente do SETCEPAR, Luiz Gustavo Nery, apontou que o avanço do acordo exige uma preparação das empresas brasileiras. “O efeito multiplicador deste crescimento impactará toda a cadeia logística, incluindo armazenagem, terminais retroportuários, operações de consolidação e serviços aduaneiros”, explicou.
“Para absorver esse aumento de demanda, será fundamental focar na capacidade operacional, eficiência e planejamento, garantindo que o setor mantenha a qualidade, o cumprimento de prazos e a competitividade”, disse.
Ele destacou que o tratado exigirá maior profissionalização e acompanhamento de perto do setor. “O aumento de volume virá acompanhado de exigências mais rígidas em padrões operacionais, sanitários, ambientais e de rastreabilidade. As empresas que investirem em eficiência, tecnologia e integração da cadeia logística terão vantagem competitiva.”
Nesse quesito, o CFO e sócio na Comexport, Rodrigo Guerra, compartilhou uma opinião parecida e afirmou que esse “jogo será jogado no micro”. “As empresas que estiverem mais preparadas, com mais tecnologia, com melhor marketing e com as melhores pessoas serão as que sentirão a maior diferença e não necessariamente uma mudança macro decorrente do acordo comercial”, declarou.
Fonte: Mundo Logistica




