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Postado em 10 de setembro de 2019 | 17:51
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Comércio exterior contribui para a expansão do Centro-Oeste, diz Ipea

O Centro-Oeste deu uma guinada econômica nos últimos 20 anos. Agregada às regiões menos desenvolvidas, Norte e Nordeste, antes da década de 1990, hoje o centro do país está associado às macrorregiões mais ricas do Brasil, o Sul e o Sudeste. Isso porque, em 20 anos, teve o maior crescimento industrial do país, puxado, principalmente, pelo comércio exterior. Os dados fazem parte de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado, com exclusividade, para o Correio.

Enquanto, entre 1996 e 2016, a média nacional é de um crescimento de 2% do valor de transformação industrial (VTI) — indicador calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística que define a diferença entre o valor bruto da produção industrial e o custo com as operações —, no Centro-Oeste o índice foi de 6,7%, acima do Norte, segundo colocado, com 4,4%, que ganhou o impulso da Zona Franca de Manaus no período.

Quando o recorte é entre 1999 e 2016, a produção industrial cresceu 7% no Centro-Oeste, superando as regiões Norte, com 5,2%, e Nordeste, com 3,5% no mesmo período. De acordo com o técnico de planejamento e pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais (Dirur) do Ipea, Murilo Pires, responsável pela pesquisa, a guinada do Centro-Oeste se deu porque, nas primeiras políticas públicas de desenvolvimento regional, a região era vista como “um problema”, como o Norte e o Nordeste. “Hoje, o Centro-Oeste está mais próximo do Sul e do Sudeste, que são regiões desenvolvidas”, disse.

Dinâmica
A explicação para essa mudança, segundo o especialista, ocorre dos anos 1990 em diante, quando o processo de industrialização em São Paulo começa a se espraiar para o sul e para o norte do estado, chegando ao Centro-Oeste. “Porém, a dinâmica do desenvolvimento do Centro-Oeste começa antes, com a agricultura, que provocou um vetor de modernização, a revolução verde da produção de soja”, comentou. “Em 1980, entram grandes comercializadores e agroindústrias. A partir de então, os estados começam a dar incentivos fiscais. Isso provoca o crescimento industrial e a diversificação”, assinalou.

Quando se chega aos anos 1990, os eixos de integração e desenvolvimento conectam a região ao mercado internacional. “O estímulo externo, de certa forma, regulou o desenvolvimento dos estados do Centro-Oeste, a partir do comércio exterior (exportação e importação) e o que ocorre com a produção industrial”, afirmou. Quando o estudo abre as unidades da Federação da região Centro-Oeste, Goiás, inicialmente, é o mais industrializado de todos, depois Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e, por fim, Distrito Federal.

“Com o transbordamento do setor industrial paulista, no fim dos anos 1990, houve uma transferência muito forte para o Centro-Oeste relacionada a recursos naturais, principalmente, a indústria de alimentos. Depois, entram os farmoquímicos, no bojo de programas de incentivo fiscal dos estados”, explicou. A indústria química movimenta a importação de matéria-prima, sobretudo princípios ativos. “A partir de 2010, o Centro-Oeste aumenta o hiato em relação a Norte e Nordeste, disparando as exportações. O vetor externo passa a ter papel muito forte na atividade econômica da região”, explicou o pesquisador do Ipea.

No crescimento das exportações, o Distrito Federal está na frente no período estudado, segundo Pires, porque a base de comparação é muito baixa, uma vez que partiu praticamente do zero. A maior evolução é de Mato Grosso, seguido de Mato Grosso do Sul e de Goiás. “Em termos de volume, Mato Grosso e Goiás são os principais exportadores de soja e derivados, milho, carne e algodão, sulfeto de minério de cobre e concentrados”, enumerou.
Alimentos
Conforme a pesquisa, as importações da região Centro-Oeste passaram de 0,8% do total nacional, nos anos 1990, para 5,5%, em 2016. “A região ainda exporta muito mais do que importa. Por isso, a taxa de crescimento das exportações foi a maior do país e chegou a 13% ao ano entre 1990 e 2016, com dólar deflacionado, portanto, taxa real”, observou. “De 29 setores, há 10 principais que concentram o valor bruto do Centro-Oeste em 2016: produtos alimentícios, com quase 55%; coque e biocombustíveis, 10,2%; produtos químicos, 8,3%; celulose, 2,7%; bebidas, 3,1%; produtos não minerais, 2,6%; veículos, 2,4%; metalurgia, 2,3%; metal, 1,8%; e farmoquímicos, 1,7%.

A conclusão da pesquisa de Murilo Pires é que a integração do Centro-Oeste ao mercado internacional têm sido o principal catalisador da atividade industrial na região. “A presença do comércio exterior permitiu dobrar a taxa de crescimento industrial do Centro-Oeste no período observado quando comparado ao Nordeste. Isso coloca a região acima da média nacional em relação à taxa de crescimento anual na atividade industrial do país”, reforçou.

No entanto, o pesquisador fez algumas ressalvas à base econômica da região. “Primeiro, mais de 50% das exportações são para China, Hong Kong e Oriente Médio. Há uma dependência muito grande desses mercados. Além disso, o Centro-Oeste ainda exporta produtos de baixo valor agregado, importando mais industrializados e manufaturados, e tem um setor industrial que está muito alinhado com o que está sendo exportado”, ponderou.

Fonte: Correio Braziliense


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