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Postado em 18 de dezembro de 2017 | 18:19

Por que o comércio internacional é dominado pelos países desenvolvidos?

O economista Paul Krugman, vencedor da edição 2008 do Prêmio Nobel de Economia, revolucionou a teoria do comércio internacional que vigorava na década de 1970 e que determinava os efeitos do livre mercado e da globalização, assim como as forças dominantes por trás da urbanização mundial. O economista, autor de famosos livros na área, também leciona Relações Internacionais na Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Além da atividade acadêmica, Krugman mantém uma coluna no jornal americano The New York Times. Seu trabalho premiado procura esclarecer por que o comércio internacional é dominado por países que não apenas têm condições econômicas similares, como também comercializam produtos semelhantes. Por meio de sua teoria, ele integrou os campos de pesquisa em comércio internacional com geografia econômica.

Na década de 1970, a teoria que vigorava sobre o comércio entre os países era baseada na hipótese de que os mercados funcionavam bem sozinhos, seguindo a linha de pensamento de que os mercados se autorregulam e que defende a mínima intervenção por parte dos agentes governamentais. Não só isso, mas também a visão clássica de Bertil Gotthard Ohlin, conhecida como “Teoria das Vantagens Comparativas” e explicada no post “O comércio internacional é bom para todos os países?”, em que o comércio entre o mundo desenvolvido e o subdesenvolvido é bem explicado. Nesse cenário, Paul Krugman revoluciona a maneira como o comércio internacional era visto e entendido.

Na contramão da teoria de Ohlin, Krugman conseguiu explicar por que existe um comércio internacional tão intenso entre países muito parecidos em dotações de recursos, como as nações ricas em geral. A “Teoria das Vantagens Comparativas” que diz que no comércio internacional cada um produza aquilo que tem condições de fazer melhor: matérias-primas e produtos de baixo valor agregado, nos países subdesenvolvidos, e produtos mais sofisticados nos desenvolvidos. Paul questiona por que então os países ricos têm entre si um comércio tão volumoso – na realidade, ainda representa a maior parte do comércio internacional. Atualmente, só o comércio entre os países da União Europeia representa cerca de 15% do comércio mundial de mercadorias, segundo o EuroStat.

Um dos seus enfoques está centrado na ideia de que muitos bens e serviços podem ser produzidos de modo mais barato quando produzidos em grandes quantidades, um conceito conhecido em geral como economia de escala. Isso se deve ao fato de que alguns custos que são iguais se produzido uma unidade ou mil, será repartido entre as mil unidades produzidas. Os países desenvolvidos utilizam em grande quantidade a economia de escala. O achado de Krugman foca na combinação entre desejo de variedade, por parte dos consumidores, e as chamadas economias de escala, por parte dos produtores, para explicar o comércio entre nações desenvolvidas. Assim, Krugman questiona a ideia antes predominante de que um país como o Brasil, rico em matéria-prima e mão-de-obra, deveria centralizar seus esforços em produzir e exportar commodities.

Aliás, o caso brasileiro é um exemplo dos conceitos trazidos pelo economista, pois o Brasil é um país que historicamente foca sua produção e exportação em commodities, produtos básicos como açúcar e soja. Segundo dados divulgados pelo MDIC (Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços) a exportação de produtos básicos pelo Brasil em 2016, liderando a soja, minério de ferro e petróleo em bruto, totalizou US$ 79,1 bilhões em exportações. Apesar desse histórico, a exportação de produtos manufaturados em 2016, ou seja, os produtos de maior tecnologia envolvida, totalizaram US$ 73,9 bilhões em exportações. Os três produtos manufaturados mais vendidos foram aviões, plataforma para exportação de petróleo e automóveis de passageiros. Para o fechamento das exportações de 2017, a previsão é que ela tenha sido ainda maior que o ano de 2016, assim como o saldo da balança comercial, em que é subtraído de tudo que o país exportou, suas importações. O saldo em 2016 foi de US$ 47,2 bilhões e a previsão para 2017 é que alcance US$ 60 bilhões. Fica evidente, portanto, a necessidade de se investir em produtos industrializados, pois, mesmo para um país como o Brasil que prioriza a exportação de commodities, os ganhos com estes foram quase similares aos ganhos com aqueles produtos.

O economista também elaborou uma nova visão do comércio mundial segundo a qual a globalização leva à concentração. Sua teoria mostra que a globalização favorece um modelo no qual as pessoas se vêm atraídas para os centros urbanos. As teorias de Krugman têm mostrado que o resultado destes processos pode ser que as regiões fiquem divididas em um centro urbano altamente tecnológico e uma ‘periferia’ menos desenvolvida, como é o perfeito exemplo do Brasil. A questão da cada vez maior concentração demográfica nas cidades tem categoria de debate político em qualquer parte do mundo, mas em especial nos países em desenvolvimento.

Dessa forma, Krugman defende ações governamentais como forma de resolução dos problemas acima descritos. Uma dessas soluções é a elaboração de políticas de desenvolvimento regional, que são ações do governo destinadas a estimular o desenvolvimento econômico em áreas geográficas em que a produção e/ou a renda per capita, ou seja, o quanto cada pessoa ganha em média de salário, são menores do que nos centros de economia do País. Este tipo de ação seria importante para o Brasil ficar um passo mais próximo de se tornar um país desenvolvido. Outra política defendida por Krugman é a intervenção governamental para criar estímulos às exportações e ao desenvolvimento de tecnologia industrial e de economias de escalas, visando aumentar a produção nacional.

Em um cenário global como o atual, em que muitos países tendem a fechar suas fronteiras para o comércio internacional, as ideias de Krugman se tornam importantes ferramentas para a compreensão da dinâmica que há na interação comercial entre as nações. Além disso, a importância que o economista dá para o tema do desenvolvimento geográfico também traz aos debates a necessidade de se pensar também em um desenvolvimento interno mais igualitário, a fim de poder, no longo prazo, melhorar a posição do País nas mesas de negociações internacionais.

Post de Samy Dana em parceria com Karina Senne Martinez, graduanda em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas e consultora da Consultoria Júnior de Economia da EESP-FGV.

Fonte: G1

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