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Postado em 29 de maio de 2018 | 17:35

Aprendendo a lição da pior maneira possível, por Paulo Resende

Essa história começa há um século, quando o Brasil, já vivendo ares de uma República consolidada, avançava no modal ferroviário, que chegaria a ser o segundo, depois da Índia, em número de passageiros transportados por ano. Paralelamente, Europa e Estados Unidos entravam na era do petróleo, e fomentavam um sistema rodoviário que, logo no meio do século XX, passaria a ter papel de destaque. Naqueles países, porém, construía-se um sistema multimodal integrado.

No pós-guerra, e sob a influência de aliados externos com claros interesses comerciais, o Brasil decide substituir as ferrovias por estradas. Logo, a indústria do petróleo atrairia montadoras que, por sua vez, demandavam estradas para seus veículos. Aproveitando-se das dimensões continentais, demandas crescentes, e assentadas em uma falta de visão de longo prazo, governos sucessivos impõem uma infraestrutura rodoviária sem precedentes. Forma-se, então, uma das matrizes de transportes mais desequilibradas já vistas.

O século XXI se inicia com grandes transformações nas cadeias produtivas. Com o fim da hiperinflação, setores industriais optam por uma nova estratégia. As cadeias de suprimentos deixam de trabalhar com grandes estoques, e uma nova logística se forma para alimentar as linhas de produção. Se tal estratégia possui um grande ponto positivo, que é a redução de custos com estocagem, por outro lado ela concentra seus riscos na possibilidade de desabastecimento, se o transporte não se mostrar eficiente.

É assim que o Brasil avança. Governado através dos anos por agentes sem o menor conhecimento dessas transformações, e tratando a matriz de transportes como mais um objeto político. Pois bem, a fera se mostra com todas as suas garras, e poucos dias de paralisação são suficientes para romper linhas de produção, falta de gêneros de primeira necessidade e uma miríade de desconfortos para a população. É o preço pago por uma nação governada por interesses mesquinhos, sem a menor preocupação com as estratégias necessárias para termos um grande Estado. Estamos aprendendo essa lição da pior maneira possível.

Paulo Resende é coordenador do Núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral

Fonte: O Estado de S. Paulo

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