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Postado em 19 de março de 2020 | 18:32

Após recorde em 2019, elétricas devem adiar emissões de debêntures por coronavírus

Turbulências nos mercados globais devido à pandemia de coronavírus devem levar empresas de energia no Brasil a postergar ou até cancelar emissões de debêntures para financiar projetos, e muitas deverão voltar a buscar recursos no BNDES, que vinha gradualmente perdendo espaço nas captações.

O movimento, projetado por uma fonte do setor bancário e especialistas, vem após um volume recorde de captações em 2019, quando companhias de energia emitiram 27,3 bilhões de reais em debêntures de infraestrutura, um avanço de 41% ante 2018.

“Impactou sensivelmente. Algumas emissões foram suspensas. Os investidores institucionais, que são quem movimenta o mercado, estão em modo de espera. Não conseguimos cotar nada com fundos e grandes assets”, disse à Reuters uma fonte em uma das maiores instituições financeiras do país.

O mercado não deve travar totalmente, uma vez que empresas mais conhecidas e com garantias robustas ainda têm condições de levar operações adiante, principalmente nos setores de energia renovável e transmissão, mas a expectativa é de uma piora nas condições.

“Obviamente, com ajustes de preço para cima e talvez com redução de prazo”, acrescentou a fonte, que falou sob a condição de anonimato.

Em 2019, com o aquecimento no mercado, muitas elétricas conseguiram financiar projetos via debêntures com prazos longos, de até 25 anos, em custos por vezes mais competitivos que os ofertados em empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

“Esse é um mercado (debêntures) que vai ser muito afetado, tende a sofrer. Ele é de longo prazo, mas talvez vai exigir um pouco mais de taxas de juros, e isso vai afetar um pouco as empresas, que vão ter um custo mais caro”, disse à Reuters o presidente da assessoria financeira BF Capital, Renato Sucupira.

“Com a retração dos investidores, para colocar a mesma quantidade (de debêntures) você tem que elevar a taxa de juros. E aí para algumas empresas é melhor postergar e esperar o cenário melhorar.”

A elétrica Eneva, por exemplo, anunciou na noite de sexta-feira o cancelamento de uma oferta de 600 milhões em debêntures devido à “atual conjuntura de mercado desfavorável”.

“Com a deterioração do cenário global é natural que a gente veja uma redução dessas emissões”, afirmou o consultor André Fonseca, da Thymos Energia, projetando menos operações que em 2019, mas sem apontar quanto elas poderiam alcançar em 2020.

RISCO MAIOR
Um dos fatores que deve gerar preocupação entre investidores é a possibilidade de uma grande retração no consumo de energia do Brasil à medida que empresas e indústrias colocam funcionários em trabalho remoto ou reduzem atividades para evitar a disseminação do vírus.

Embora empreendimentos decorrentes de leilões do governo para novos projetos de geração e transmissão de energia não enfrentem riscos diretos de demanda em seus contratos, usinas viabilizadas nos certames mais recentes têm buscado vender boa parte da produção em contratos privados, no chamado mercado livre de eletricidade.

Com as preocupações geradas pelo coronavírus, bancos e investidores deverão olhar com lupa esses contratos privados e seus riscos associados, assim como outras incertezas. O câmbio, por exemplo, pode ser um fator de risco para projetos renováveis, principalmente usinas solares.

“A gente entra em um cenário de aversão a risco. O crédito deve ficar restrito a grandes empresas, com situação financeira favorável. Bons projetos devem sair. As empresas de médio porte devem ter dificuldade maior de obter fiança bancária para seus projeto”, afirmou Fonseca, da Thymos.

O consultor apontou ainda que esse cenário deve levar mais empresas a buscar recursos BNDES, que mais recentemente vinha perdendo competitividade frente a emissões de debêntures.

“No momento em que essa janela do mercado de capitais pode vir a fechar, o BNDES vai estar ali, sem dúvida”, apontou ele.

O presidente do BNDES, Gustavo Montezano, disse na semana passada que o banco pretende atuar com “papel contracíclico” em meio à crise gerada pelo coronavírus, o que poderá incluir participação como comprador em emissões de debêntures.

“Se algum cliente que fosse fazer uma emissão de debêntures e o mercado fechar temporariamente, ele pode recorrer ao banco e vamos financiar”, afirmou ele.

Fonte: Reuters


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