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Postado em 18 de fevereiro de 2021 | 18:10

Pandemia reforça aproximação comercial entre Brasil e Ásia

A pandemia do novo coronavírus fortaleceu o movimento dos últimos 20 anos de aproximação comercial entre Brasil e Ásia (sem considerar os países do Oriente Médio), segundo dados do Ministério da Economia compilados pela Folha.

Desde 2001, a participação da Ásia nas transações comerciais (soma da importação e exportação) do Brasil com o mundo vem crescendo. Naquele ano, do montante total, em dólares, do comércio exterior brasileiro, 14% eram relativos ao continente asiático. Essa presença aumentou gradativamente até chegar em 38% em 2019. Com a pandemia, esse percentual pulou para 42% no ano passado.

Para especialistas ouvidos pela reportagem, essa dinâmica ocorreu principalmente pelo rápido desenvolvimento econômico da China nas últimas décadas. Mas não apenas por isso. O crescimento de países como Coreia do Sul, Índia e os integrantes da Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático) também reforçou o movimento.

Se analisados os números de 2020 pelos fluxos, enquanto 35% do importado pelo Brasil veio da Ásia, 47% dos nossos produtos vendidos foram para eles.

Ao mesmo tempo, à medida que a presença desses países na composição do comércio brasileiro despontou, a participação de outras regiões, como América do Sul, América do Norte e Europa caiu.

Maurício Santoro, professor de relações internacionais da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), diz que é preciso considerar que esse recuo é relativo. “O volume de comércio cresceu em geral, mas esse avanço ocorreu de forma muito mais rápida com a Ásia.”

Dados do Banco Mundial mostram que, em 2000, os países asiáticos tinham 24% da participação do PIB global, enquanto em 2019 o percentual chegou em 32,6%.

Essa disparada da Ásia, segundo Santoro, ocorreu principalmente devido a uma grande reforma econômica na China no final dos anos 1970 —que impulsionou uma onda de industrialização na Ásia. Inicialmente, houve investimentos em setores com o uso intensivo de mão de obra (menos sofisticados). Aos poucos, porém, esses países foram se desenvolvendo e ganhando escala na complexidade tecnológica.

“Eles passaram a fabricar produtos eletrônicos e automóveis. Hoje em dia você tem muitas montadoras coreanas, chinesas e japonesas presentes no Brasil”, afirma. “E como competir com esses países se eles têm mão de obra muito qualificada, excelente infraestrutura, custos mais baixos e carga tributária menor?”

?Se, por um lado, a indústria e os produtos asiáticos se tornaram mais relevantes no comércio global, por outro, houve uma busca por essas nações em querer diversificar seus e fornecedores de commodities, principalmente soja, minério de ferro e até mesmo carne.

“Muitos desses países, por pressão norte-americana, tinham os EUA como o principal fornecedor desses produtos básicos. Mas por uma questão de segurança alimentar, houve interesse em expandir o menu de importadores, e o Brasil era uma boa opção”, afirma Thiago Mattos, analista comercial brasileiro na Coreia do Sul.

Mattos cita como exemplo a abertura, em 2018, do mercado coreano à carne de porco de Santa Catarina, após dez anos de negociação. De lá para cá, as exportações brasileiras do produto para o país quadruplicaram.

“Mesmo havendo resistência, a qualidade e o baixo custo dos produtos brasileiros acabam entrando nesses mercados. Mas é preciso lembrar que houve também uma maior instabilidade dos americanos nos últimos anos e ainda um aumento da capacidade produtiva no Brasil”, diz.

Assim como a Coreia do Sul, Japão e China também têm o problema da segurança alimentar, acabam importando muito do Brasil e ainda produzem bens que faltam no mercado brasileiro. Já os países da Asean e a Índia não têm a mesma complementariedade.

“Os integrantes da Asean são muito diversos; há países pequenos territorialmente, como Brunei e Singapura, e grandes, como a Indonésia. Dependendo do produto, eles chegam a ser nossos concorrentes, como é o caso da Tailândia com as frutas. Mas a produção agro deles nem sempre é suficiente, o que nos mantém atraentes”, diz Mattos.

“Já a Índia é forte em setores que nos interessam, como em produtos de computação e em fármacos. Eles também têm espaço para a produção agro, mas podem ser fortes compradores pelo tamanho da população. Nossa relação comercial com eles ainda é subutilizada, e lá está o mercado de consumo dos sonhos.”

De todas as relações com os asiáticos, a que mais chama a atenção nas duas últimas décadas é, sem dúvida, com a China. O gigante asiático saiu do 9º parceiro comercial do Brasil em 2001 para o 1º em 2009, mantendo-se na posição até hoje.

No ano passado, as transações comerciais Brasil-China foram mais do que o dobro do comércio Brasil-EUA, segundo dados do governo brasileiro. No período, os três primeiros produtos mais vendidos para os chineses foram a soja, o minério de ferro e o óleo bruto de petróleo. Enquanto as plataformas de perfuração, partes de celulares e televisão foram os mais adquiridos pelos brasileiros.

O fluxo maior vem das compras chinesas. A importação de produtos agro pela China foi de US$ 921 milhões em 2000 para US$ 36 bilhões em 2020, de acordo com dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior) e da ONU (Organização das Nações Unidas), compiladas a pedido da Folha pelo Insper Agro Global.

“Em 2019, a China foi o primeiro destino das nossas exportações de soja, carne bovina, carne de frango, carne suína, celulose, açúcar e algodão. Por outro lado, o Brasil foi o maior fornecedor desses produtos aos chineses, com exceção da celulose (ficando em 2º lugar) e da carne suína (ficou em 3º)”, diz Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global.

Ainda segundo os dados do Insper, 78% da soja exportada pelo Brasil em 2019 foi para a China, enquanto 65% da oleaginosa comprada por eles era brasileira.

Jank explica que o que intensificou a abertura do mercado chinês para o Brasil nos últimos anos foi a guerra comercial que eles tiveram com os americanos. Até 2016, os Estados Unidos lideravam as vendas de produtos agrícolas para a China. Desde 2017, eles perderam a dianteira para os brasileiros.

“O acordo entre eles [fechado em janeiro de 2020] prevê um crescimento nas compras que pode mudar esse cenário, mas até agora esse acerto não deu certo porque as tarifas não caíram rapidamente como previsto, e os americanos não estavam preparados para exportar soja devido a problemas climáticos”, afirma.

“O governo Joe Biden escolheu a descendente de taiwaneses Katharine Tai para assumir a chefia de representação comercial da Casa Branca, num sinal de tentar recuperar esse espaço perdido com os chineses. Mas o problema é que a disputa com eles é maior do que isso”, diz.

Se na compra e venda de produtos agrícolas a relação do Brasil e China é de quase uma codependência, no comércio de produtos industrializados, a situação é diferente. As compras brasileiras são bastante diversificadas, como explica Mauro Vieira Sá, coordenador do Getit (Grupo de Pesquisa em Economia Industrial, Internacional e da Tecnologia), da Ufam (Universidade Federal do Amazonas).

“A China, pelo seu desenvolvimento, pelo tamanho da sua população e pela produção em escala, consegue diversificar suas atividades e manter os preços competitivos. Hoje 20% das compras feitas pelo Brasil no exterior são de bens chineses, e tem de tudo um pouco”, afirma.

Embora um quinto das importações brasileiras venha do gigante asiático, essas compras representam apenas 1,42% de tudo que os chineses vendem para o mundo, de acordo com dados da Unctad (agência da ONU para comércio e desenvolvimento), compilados por Sá a pedido da reportagem.

“Por mais que um dependa do outro, a China tem mais margem de manobra para vender seus produtos para outros países. E eles já estão se preparando para depender menos dos produtos brasileiros, investindo em determinadas regiões da África, pensando no futuro de seu abastecimento alimentar”, diz Sá.

 

 

 

 

Fonte: Valor


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