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Postado em 28 de outubro de 2020 | 17:47

Fundos têm interesse nas grandes concessões

De olho nos mais de US$ 3,29 trilhões que os fundos árabes têm para investir em ativos no mundo, o governo brasileiro vem costurando acordo de livre comércio entre o Mercosul e os Países Árabes para evitar a bitributação do Imposto de Renda sobre os lucros de empresas e fundos de investimentos da região. Este é um dos pleitos dos Países Árabes para poder destravar maiores aportes no Brasil. Dos dez maiores fundos soberanos existentes do mundo, três são de países árabes, que juntos concentram quase R$ 1,5 trilhão. Especialistas avaliam que diante do potencial, ainda é tímido o total de investimentos feitos no Brasil, e que a exposição deve aumentar com as novas rodadas de concessões anunciadas pelo governo federal – se questões tributárias e regulatórias avançarem junto – nas áreas de infraestrutura, saneamento, portos, aeroportos, petróleo, vendas de imóveis da União, e que demandarão, nas contas da PwC até US$ 150 bilhões.

“São investimentos que têm o perfil de ativos que esses fundos gostam de investir, com prazos longos de 20, 30 anos. Nós estamos em contato com três desses fundos que sinalizaram interesse no Brasil”, afirma Christian Gamboa, sócio da PwC Brasil e líder de private equity. Os fundos a que se refere são Mubadala, Abu Dhabi Investment Authority (ADIA) e o fundo soberano da Arábia Saudita (PIF). E foi justamente do PIF que veio o anúncio mais recente de interesse no Brasil, em outubro de 2019. Por meio de acordo assinado entre o presidente Jair Bolsonaro, em visita ao Oriente Médio, e o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, o PIF se comprometeu a investir US$ 10 bilhões no país. Sem definir, no entanto, prazo, nem os setores que devem receber o dinheiro.

“Vejo alto interesse desses fundos, por exemplo, em ativos como a Cedae – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro”, observa Gamboa.

São poucos, no entanto, os fundos árabes que atuam diretamente nos países onde investem. No Brasil somente o Mubadala mantém escritório de representação no país. Os outros fundos têm atuado por meio de parcerias com consultorias e empresas. De olho nisso, a KPMG mantém uma liderança brasileira totalmente voltada aos negócios do Oriente Médio, que atua em parceria com a liderança de fundos de investimentos para identificar oportunidade que venham da região. A expectativa é a de que haja aumento significativo de investimentos dos fundos árabes no Brasil.

“Nos próximos dois anos é impossível não acontecer nenhum investimento árabe no Brasil, pois têm muitos negócios com DNA de fundos árabes nas áreas de energia, infra, recursos naturais, alimentos e até entretenimento e esportes”, diz Roberto Haddad, sócio-líder de fundos de investimentos da KPMG no Brasil. Mas o executivo explica que esses investimentos geralmente chegam em consórcios que envolvem outras empresas além dos fundos.

Outro ponto de atratividade para os fundos é o preço dos ativos, em reais, estarem muito barato devido a desvalorização da moeda local frente ao dólar. “O Mubadala, que tem mais de US$ 2 bilhões investidos no Brasil – Porto Açu e Rota das Bandeiras -, já sinalizou que tem mais US$ 1 bilhão disponível para outros setores como esporte e entretenimento. Além disso, a indústria financeira, especialmente seguros e resseguros, entrou no radar dos fundos árabes”, conta Marcus Ayres, sócio global responsável por investidores na América Latina da Roland Berger.

A Minerva Foods é exemplo de empresa que desde 2015 vem recebendo aportes de vários fundos, tendo no saudita Salic, o seu principal, que já injetou R$ 1,6 bilhão na empresa e que detém 34% de seu capital.

“Todo aumento de capital da Salic e de outros acionistas foi para suportar nossa expansão na América do Sul e nos tornarmos a empresa mais diversificada no Brasil, na Colômbia, na Argentina e no Paraguai. A Salic fez parte desse business plan”, conta Fernando Queiroz, CEO da Minerva. Ele explica que é natural o fundo querer ter presença relevante como acionista em uma empresa que produz o que os países do Oriente Médio necessitam como carne, grãos, café e laranja. “Nós sempre tivemos grande participação nos mercados árabes desde nosso primeiro escritório, no Líbano, em 1994. Claro que com a Salic nossa presença aumentou e hoje a região representa de 25% a 30% do total de nossos negócios”, afirma Queiroz.

Segundo um levantamento da National Investment Information Network (Renai), entre 2004 e 2019 os árabes investiram um total de US$ 13,71 bilhões no Brasil em projetos nas áreas de manufatura, transporte, logística, automotiva, hotelaria, extrativismo, infraestrutura portuária, aeroportos e produção de alimentos. Os investimentos vieram de fundos da Argélia (US$ 3,57 bilhões), Bahrein (US$ 3,40 bilhões), Egito (US$ 3 bilhões), Arábia Saudita (US$ 1,69 bilhão), Emirados Árabes (US$ 1,44 bilhão) e Líbano (US$ 640 milhões). “A maior parte desses recursos entrou entre 2014 e 2017. Alguns dos antigos obstáculos agora começam a ser quebrados com os acordos de livre comércio. O que tende a expandir a presença dos fundos árabes por aqui”, conta Tamer Mansour, secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCBA).

 

 

Fonte: Valor


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