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Postado em 13 de março de 2018 | 17:17

Lições paraguaias: produzir soja até na areia e exportar quase tudo pelo rio

Com um ritmo de crescimento muito maior que os países vizinhos, o Paraguai deixou de ser o país da “la garantia soy yo”, expressão depreciativa usada por brasileiros que pouco ou nada conhecem além de Ciudad del Este. Agora, o Paraguai é o primo rico do Mercosul. E o campo tem uma parcela significativa de contribuição.

Em 2017, as lavouras do país atingiram a melhor marca da história: 10,6 milhões de toneladas de soja. Neste ano, por questões meteorológicas, a produção deverá cair 10%, segundo estimativas do governo, mas é difícil encontrar um produtor desanimado no país. Principalmente no departamento de Alto Paraná, que faz fronteira com o Brasil.

Lá, os produtores, especialmente os brasileiros, que vivem há décadas no país, conseguiram excelentes médias de produtividade na primeira safra de soja, entre 4.500 e 5.000 kg por hectare, dependendo da cidade. Eles também esperam um bom desempenho na safrinha, seja de milho ou de soja, já que, ao contrário de alguns estados brasileiros, no país vizinho é permitido plantar a oleaginosa consecutivamente.

Percorrendo a região na última semana, a equipe da Expedição Safra conversou com vários produtores locais em dois encontros, em San Cristóbal e Santa Rosa del Monday. O custo de produção foi semelhante ao ano passado, os preços nas vendas estavam bons e não houve perdas para doenças e pragas. “Foi uma safra muito boa, inclusive alguns produtores colheram melhor do que no ano passado”, conta Carlos Gracietti, gerente da unidade da Agrotec em Santa Rita.

O otimismo com o futuro é ainda maior que o contentamento com o presente. Principalmente em relação ao milho. Já que os produtores esperam que possíveis perdas nas safras da Argentina e Brasil possam impulsionar os preços. “Como a soja foi plantada mais cedo, a expectativa é que o milho tenha um excelente desempenho”, complementa Gracietti.

Dados da Expedição Safra para o Paraguai indicam que a produção de soja e milho pode crescer 50% na próxima década. Para 15 milhões e 6,5 milhões de toneladas, respectivamente. Metade para exportação.

Soja na areia
Embora seja o maior produtor de grãos do Paraguai, principalmente por causa das características de solo e clima (semelhantes ao da região Oeste do Paraná), o Alto Paraná não brilha sozinho. Outros departamentos mostram bons exemplos, como San Pedro. Lá, os produtores estão tirando 67 sacas por hectare, de média, da areia, literalmente. Com um solo extremamente arenoso, o plantio direto foi a solução encontrada pela cooperativa menonita Friesland para garantir os grãos.

Ao todo, 40 produtores plantam 11 mil hectares de soja e 1,2 mil hectares de milho verão. O que pode parecer pouco é um desafio. “Usamos uma combinação de cobertura feita de matéria com produtos agroquímicos para garantir uma boa fertilidade do solo”, conta o engenheiro agrônomo Luís Medina, assistente técnico na região. “A receita tem dado certo, basta observar as médias dos nossos cooperados com o restante da região. Enquanto colhemos 4 mil quilos por hectare, eles tiram 1.800”, afirma o também engenheiro agrônomo, David Friesen.

Outra aposta da cooperativa tem sido a integração Lavoura-Pecuária-Floresta. Um projeto lançado há seis anos pretende alcançar 1,5 mil hectares com silvicultura numa década. Até o momento, 750 hectares já adotam o sistema, que utiliza eucaliptos. “Além de elevar as condições de conforto do gado, a integração aumenta a rentabilidade do produtor e promove a sustentabilidade da terra”, explica Friesen.

Agroindústria
Agregar valor aos grãos é uma tendência no país. O principal destaque neste quesito é Campo 9, no departamento de Caaguazú, cidade com maior índice de agro industrialização do Paraguai. Além de abrir a maior fábrica de lácteos do país, a cidade também tem um moinho para fabricação de farinhas e massas.

Duas cooperativas menonitas são referência nesta região. Na Lactolanda são processados 650 mil litros de leite por dia. Com 460 funcionários, a empresa tem 42% do mercado interno e exporta para 20 países, entre eles, o Brasil. Ao todo, mais de 138 produtos são produzidos na planta localizada na Ruta 7, que liga Ciudad del Este e Assunção. “Nosso crescimento é alto e bastante sustentável”, conta Bernie Friesen, gerente geral da unidade.

Com uma produção de 30 toneladas por dia, o leite em pó é o principal produto de exportação da empresa. “Um dos principais destinos é o Brasil. Como o Paraguai depende muito da nossa produção, nós exportamos apenas o excedente, algo em torno de 3%, não é nosso grande objetivo no momento”, explica Friesen. A cooperativa conta com 1.800 associados, que produzem com uma média muito superior a nacional. “Enquanto as vacas do restante do país produzem 12 litros por dia, as nossas produzem quase 30. Nós não temos capacidade para industrializar toda matéria-prima, por isso estamos ampliando constantemente nossa planta”, conclui o gerente.

Também em Campo 9, a cooperativa menonita Sommerfeld trabalha na produção de soja, milho, aveia, sorgo, girassol e canola, mas é o trigo que tem o maior destaque. Com dois moinhos, com capacidade para processar 80 mil toneladas por ano do cereal de inverno por ano, a cooperativa, com seus 1.110 cooperados, é proprietária da Sol Blanca, uma famosa marca de farinha do Paraguai. “Nós nunca tivemos um ano tão ruim com o trigo como neste, 100% dos 18 mil hectares cultivados na região são utilizados nas nossas fábricas, mas por enquanto, apenas 3 mil hectares de sementes fomos vendidos. Acredito que no futuro, mas próximo da safra a situação mude e o produtor acabe plantando, mas é uma situação bastante delicada”, explica o engenheiro agrônomo Marcelo Hartmann.

Infraestrutura
O maior desafio do Paraguai é infraestrutura. O país tem uma rede precária de estradas. No país, por exemplo, não é permitido o uso de bitrens. Em janeiro deste ano, uma experiência com este tipo de transporte provocou uma greve de caminhoneiros paraguaios, que prejudicou o escoamento de grãos e de produtos dentro do país. Os paraguaios temem perder empregos com a medida. No entanto, produtores apostam na redução de custos e aumento de competitividade. Algumas estradas, como a ruta 7, entre Ciudad del Este e Assunção, estão com obras, inclusive de duplicação. No restante do país, no entanto, as estradas não recebem nem manutenção, principalmente no Chaco, área que ocupa 60% do território do país.

No entanto, se as rodovias ainda precisam de investimento, as hidrovias do Paraguai fazem inveja a muitos países com potencial semelhante, como o Brasil. Com uma rede de 35 terminais de grãos – 24 no Rio Paraguai e 11 no Rio Paraná –, e mais 12 em construção, o país exporta 96% do que produz pelos rios.

Fonte: Gazeta do Povo


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